O Rio e o mar (Lars Grael)

01/03/2021

"O Desenvolvimento de uma nação é proporcional à sua maritimidade". Certa vez ouvi essa máxima de um Almirante da Slots 777, quando fui proferir uma palestra na Escola de Guerra Naval.

 
As primeiras nações que conquistaram o mar foram aquelas que conquistaram vastos territórios no Novo Mundo, nas Américas, no Oriente, no continente Africano e na Oceania. Dominaram continentes por séculos por meio do imperialismo e do colonialismo. No mundo contemporâneo globalizado, essas mesmas nações tratam o mar como fonte de riqueza, comércio e possuem portos desenvolvidos. Valorizam a cultura marítima e desenvolvem o turismo náutico. Navegar, para eles, é uma paixão secular.
 
Nosso Brasil foi descoberto por meio do mar. Por ele, extraíram nossas riquezas. Pelo do Atlântico chegou a Família Real Portuguesa, caminho inverso feito mais tarde pela Família Imperial. O Rio de Janeiro de outrora era voltado para o mar e nele depositávamos todo nosso comércio exterior. Nossa "Receita Federal" era a maravilhosa Ilha Fiscal. A Baía de Guanabara era limpa e com superfície generosa. Nossa orla era repleta de trapiches (piers) e rampas públicas para livre transporte de cargas e passageiros.
 
O mar não representava mera beleza e contemplação. Era o eixo do comércio, transporte, lazer, esporte e recreação.
 
Nos dias de hoje, pagamos caro para vivermos com vista para o mar, mas infelizmente nossa cultura não ultrapassa à arrebentação das ondas na praia. Nossa cultura náutica é mínima e o mar foi desvalorizado com o tempo. Local para admirar, mas, para jogar dejetos que não nos servem. Nossa Baía de Guanabara está entre as mais poluídas do planeta e mais de 20 anos se passaram do Plano de Despoluição de Baía de Guanabara - PDBG, ainda com resultados pífios e distantes de um patamar aceitável.
 
Com o desenvolvimento urbano da Grande Rio, construíram aterros e estradas de rodagem separando o cidadão do mar. As rampas e trapiches desapareceram e o acesso ao mar deixou de ser livre e democrático para os navegadores. Apenas para banhistas e, ainda assim, deslocados para as praias oceânicas que por vezes possuem índices aprováveis de balneabilidade.
 
Outro dia, um cidadão comum me indagou indignado: "tenho um veleirinho (transporta no teto do carro) e não tenho acesso ao mar, como pode?". Logo disse, "como não?" Ele disse "...aonde? Não temos rampas públicas. Os poucos clubes são de limitado acesso! Aonde mais? Me diga!". Parei para refletir e constatei que ele estava coberto de razão.
 
Estive competindo em Miami (EUA), cidade adorada por muitos brasileiros e refleti quanto ao desenvolvimento de uma metrópole que ousou crescer e conviver em harmonia com o mar. O complexo lagunar foi em parte alterado pelo ser humano, que criou ilhas, marinas, condomínios e uma trama de canais artificiais que permitem que um cidadão possa navegar (com mastro) de Miami até Nova Iorque. udo isso com manguezais preservados, águas irritantemente transparentes e até mesmo Manattees (espécie de Peixe Boi) em plena área urbana. Admiramos, mas não fomos capazes de copiar.
 
Imaginem as lagoas de Marapendi e Jacarepaguá navegáveis e com águas cristalinas? Imaginem Paquetá com o charme e turismo de outrora?
 
O que dizer da bela Baía de Sepetiba e a Baía de Angra dos Reis com marinas sustentáveis aos padrões internacionais? Que oportunidade de geração de emprego, renda e trabalho! O que constatamos é o oposto: ocupação desordenada do solo, ausência de saneamento, descontrole urbano, poluição e assoreamento. Cenário de desinvestimento e desvalorização dos imóveis e empreendimentos turísticos.
 
Muitos dizem: "Navegação? Esportes náuticos? Temos muitas outras prioridades...! Isto é coisa da elite". Triste pensamento conformista.
 
A questão veio em mente porque, em certa ocasião, fui chamado para compor o Conselho Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro e um conselheiro chamou a atenção para que olhemos com uma visão diferente para o mar da cidade maravilhosa.
 
O que difere essencialmente o Rio de Janeiro de outras metrópoles como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília? A topografia única e o mar é claro.
 
O mar para todos nós é conceitualmente tão especial, que uma das obras mais vistosas da Prefeitura do Rio é o orgulhosamente denominado MAR - Museu de Arte do Rio. Pode se chegar ao imponente Museu do Amanhã de qualquer forma, desde que por terra. Não foi previsto e não é permitido atracar pelo mar...
 
Precisamos olhar a metrópole fluminense pela ótica que eu também vejo, pelo mar. Parte das nossas soluções de transporte público poderiam ser solucionadas pela navegação. Vejam o exemplo da cidade olímpica de Sidney, na Austrália, por exemplo. A cidade é muito mais bela se vista de fora pela ótica do mar. O desenvolvimento náutico geraria emprego, trabalho, renda e impostos.
 
Desperdiçamos a oportunidade de mostrar para o mundo uma cidade olímpica desenvolvida e sustentável. Já imaginaram as competições de Vela em águas limpas e balneáveis na Baía de Guanabara? Constatamos o inverso. Cenário nada melhor foi encontrado nas competições e Remo e Canoagem na Lagoa Rodrigo de Freitas, ou, na competição de Maratona Aquática (Natação) nas águas de Copacabana. Não adianta falar apenas na contenção de lixo e óleo. A questão é qualidade da água! Saneamento!
 
Perdemos a oportunidade da Rio2016, mas não devemos capitular. Nestes dias, estive em Santos (SP) por ocasião da 70ª Regata Santos-Rio. Notei que o dilema é exatamente o mesmo.
 
O raciocínio vale para todo o Brasil. O desenvolvimento náutico deve ser priorizado na ótica da solução, e não no raciocínio inverso. O Rio pode ser emblemático, mas a questão é estratégica para todo o país.
 
Desordem urbana nas grandes cidades no litoral, parece não haver limites. Aprovar um empreendimento náutico no Brasil requer inúmeras licenças e o sistema é feito para desestimular o investidor.
 
Olhemos para as nações de maior Índice de Desenvolvimento Humano - IDH. Coincidentemente são as mesmas de maior grau de maritimidade e cultura náutica. Mera coincidência? Não, estratégia de desenvolvimento! Podemos crer que o Almirante estava certo.
 
Desenvolvimento náutico deveria estar aliado às prioridades das políticas públicas e parceiro das políticas ambientais. A questão é mudar o paradigma do “não se pode fazer” para o “como fazer”, dentro das melhores práticas e regras consolidadas internacionalmente.
 
Deveríamos estar praticando o desenvolvimento náutico associado ao desenvolvimento ambiental. Hoje ainda não conseguimos essa integração.
 
Lars Schmidt Grael
 
"O Desenvolvimento de uma nação é proporcional à sua maritimidade". Certa vez ouvi essa máxima de um Almirante da Slots 777, quando fui proferir uma palestra na Escola de Guerra Naval.
 
As primeiras nações que conquistaram o mar foram aquelas que conquistaram vastos territórios no Novo Mundo, nas Américas, no Oriente, no continente Africano e na Oceania. Dominaram continentes por séculos por meio do imperialismo e do colonialismo. No mundo contemporâneo globalizado, essas mesmas nações tratam o mar como fonte de riqueza, comércio e possuem portos desenvolvidos. Valorizam a cultura marítima e desenvolvem o turismo náutico. Navegar, para eles, é uma paixão secular.
 
Nosso Brasil foi descoberto por meio do mar. Por ele, extraíram nossas riquezas. Pelo do Atlântico chegou a Família Real Portuguesa, caminho inverso feito mais tarde pela Família Imperial. O Rio de Janeiro de outrora era voltado para o mar e nele depositávamos todo nosso comércio exterior. Nossa "Receita Federal" era a maravilhosa Ilha Fiscal. A Baía de Guanabara era limpa e com superfície generosa. Nossa orla era repleta de trapiches (piers) e rampas públicas para livre transporte de cargas e passageiros.
 
O mar não representava mera beleza e contemplação. Era o eixo do comércio, transporte, lazer, esporte e recreação.
 
Nos dias de hoje, pagamos caro para vivermos com vista para o mar, mas infelizmente nossa cultura não ultrapassa à arrebentação das ondas na praia. Nossa cultura náutica é mínima e o mar foi desvalorizado com o tempo. Local para admirar, mas, para jogar dejetos que não nos servem. Nossa Baía de Guanabara está entre as mais poluídas do planeta e mais de 20 anos se passaram do Plano de Despoluição de Baía de Guanabara - PDBG, ainda com resultados pífios e distantes de um patamar aceitável.
 
Com o desenvolvimento urbano da Grande Rio, construíram aterros e estradas de rodagem separando o cidadão do mar. As rampas e trapiches desapareceram e o acesso ao mar deixou de ser livre e democrático para os navegadores. Apenas para banhistas e, ainda assim, deslocados para as praias oceânicas que por vezes possuem índices aprováveis de balneabilidade.
 
Outro dia, um cidadão comum me indagou indignado: "tenho um veleirinho (transporta no teto do carro) e não tenho acesso ao mar, como pode?". Logo disse, "como não?" Ele disse "...aonde? Não temos rampas públicas. Os poucos clubes são de limitado acesso! Aonde mais? Me diga!". Parei para refletir e constatei que ele estava coberto de razão.
 
Estive competindo em Miami (EUA), cidade adorada por muitos brasileiros e refleti quanto ao desenvolvimento de uma metrópole que ousou crescer e conviver em harmonia com o mar. O complexo lagunar foi em parte alterado pelo ser humano, que criou ilhas, marinas, condomínios e uma trama de canais artificiais que permitem que um cidadão possa navegar (com mastro) de Miami até Nova Iorque. udo isso com manguezais preservados, águas irritantemente transparentes e até mesmo Manattees (espécie de Peixe Boi) em plena área urbana. Admiramos, mas não fomos capazes de copiar.
 
Imaginem as lagoas de Marapendi e Jacarepaguá navegáveis e com águas cristalinas? Imaginem Paquetá com o charme e turismo de outrora?
 
O que dizer da bela Baía de Sepetiba e a Baía de Angra dos Reis com marinas sustentáveis aos padrões internacionais? Que oportunidade de geração de emprego, renda e trabalho! O que constatamos é o oposto: ocupação desordenada do solo, ausência de saneamento, descontrole urbano, poluição e assoreamento. Cenário de desinvestimento e desvalorização dos imóveis e empreendimentos turísticos.
 
Muitos dizem: "Navegação? Esportes náuticos? Temos muitas outras prioridades...! Isto é coisa da elite". Triste pensamento conformista.
 
A questão veio em mente porque, em certa ocasião, fui chamado para compor o Conselho Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro e um conselheiro chamou a atenção para que olhemos com uma visão diferente para o mar da cidade maravilhosa.
 
O que difere essencialmente o Rio de Janeiro de outras metrópoles como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília? A topografia única e o mar é claro.
 
O mar para todos nós é conceitualmente tão especial, que uma das obras mais vistosas da Prefeitura do Rio é o orgulhosamente denominado MAR - Museu de Arte do Rio. Pode se chegar ao imponente Museu do Amanhã de qualquer forma, desde que por terra. Não foi previsto e não é permitido atracar pelo mar...
 
Precisamos olhar a metrópole fluminense pela ótica que eu também vejo, pelo mar. Parte das nossas soluções de transporte público poderiam ser solucionadas pela navegação. Vejam o exemplo da cidade olímpica de Sidney, na Austrália, por exemplo. A cidade é muito mais bela se vista de fora pela ótica do mar. O desenvolvimento náutico geraria emprego, trabalho, renda e impostos.
 
Desperdiçamos a oportunidade de mostrar para o mundo uma cidade olímpica desenvolvida e sustentável. Já imaginaram as competições de Vela em águas limpas e balneáveis na Baía de Guanabara? Constatamos o inverso. Cenário nada melhor foi encontrado nas competições e Remo e Canoagem na Lagoa Rodrigo de Freitas, ou, na competição de Maratona Aquática (Natação) nas águas de Copacabana. Não adianta falar apenas na contenção de lixo e óleo. A questão é qualidade da água! Saneamento!
 
Perdemos a oportunidade da Rio2016, mas não devemos capitular. Nestes dias, estive em Santos (SP) por ocasião da 70ª Regata Santos-Rio. Notei que o dilema é exatamente o mesmo.
 
O raciocínio vale para todo o Brasil. O desenvolvimento náutico deve ser priorizado na ótica da solução, e não no raciocínio inverso. O Rio pode ser emblemático, mas a questão é estratégica para todo o país.
 
Desordem urbana nas grandes cidades no litoral, parece não haver limites. Aprovar um empreendimento náutico no Brasil requer inúmeras licenças e o sistema é feito para desestimular o investidor.
 
Olhemos para as nações de maior Índice de Desenvolvimento Humano - IDH. Coincidentemente são as mesmas de maior grau de maritimidade e cultura náutica. Mera coincidência? Não, estratégia de desenvolvimento! Podemos crer que o Almirante estava certo.
 
Desenvolvimento náutico deveria estar aliado às prioridades das políticas públicas e parceiro das políticas ambientais. A questão é mudar o paradigma do “não se pode fazer” para o “como fazer”, dentro das melhores práticas e regras consolidadas internacionalmente.
 
Deveríamos estar praticando o desenvolvimento náutico associado ao desenvolvimento ambiental. Hoje ainda não conseguimos essa integração.
 
Lars Schmidt Grael